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TENTAR ou FAZER?

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  Há uma velha ideia no desenvolvimento pessoal que diz que “tentar não é fazer”. Sedutora. Sonante. Motivacional. Mas, para muita gente, profundamente bloqueadora. Isto porque o verbo “tentar” não é o inimigo. O inimigo é a forma como o interpretamos. No meu trabalho vejo isto vezes sem conta: pessoas que lidam mal com a frustração, que têm medo de falhar, que carregam a sensação de que qualquer passo em falso confirma uma narrativa antiga de insuficiência. Para estas pessoas, eliminar o verbo tentar não liberta — aprisiona. Porque tentar não é desistir. Tentar é aproximar‑se. Tentar é regular a ansiedade antes de entrar na acção. Tentar é permitir‑se experimentar sem a ameaça de ter de acertar à primeira. O verbo tentar é, muitas vezes, o primeiro degrau da coragem. Quando alguém diz “vou tentar”, não está a anunciar derrota. Está a abrir espaço para aprender, ajustar, respirar, avançar um pouco — mesmo que ainda não consiga avançar tudo. E, para quem vive com medo de falhar, est...

Já reparaste como a história adora transformar o descontentamento numa "doença"?

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Em 1851, diziam que os escravos que queriam fugir sofriam de Drapetomania — inventaram literalmente uma doença mental cujo único sintoma era o desejo irreprimível de ser livre. Durante décadas, as mulheres que não se curvavam, que protestavam ou mostravam raiva, levavam com o carimbo de Histeria e eram internadas. E até 1973, a homossexualidade constava nos manuais de psiquiatria como um transtorno a ser corrigido. Sempre que a dor, o protesto ou a recusa em aceitar o inaceitável desconfortaram a norma, o sistema fez a mesma coisa: deslegitimou a pessoa, dizendo que ela estava doente. E hoje, o que é que mudou? Mudou a embalagem, mas o mecanismo é o mesmo. Numa sociedade obcecada pelo rendimento, pelo optimismo à força e por ter tudo sob controlo, a tristeza legítima perante uma perda, a ansiedade normal diante da incerteza ou o esgotamento de quem carrega o mundo nas costas são rapidamente rotulados como "defeitos de fabrico" do cérebro. É muito mais fácil — e rentável — ten...

É importante expressarmos...

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É importante expressarmos — sempre que possível — aquilo que sentimos. Mesmo quando as outras pessoas parecem não ouvir. Mesmo quando dão a impressão de que lhes é indiferente. Porque aquilo que fica por dizer raramente desaparece. As palavras que engolimos transformam-se, muitas vezes, em tensão, ansiedade, irritabilidade, tristeza ou cansaço. O corpo acaba por carregar aquilo que a voz não teve coragem, oportunidade ou espaço para dizer. Expressar o que sentimos não garante que sejamos compreendidos. Nem significa que os outros mudem. Mas permite-nos deixar de travar uma luta silenciosa dentro de nós. Nem sempre podemos escolher a resposta que recebemos. Mas podemos escolher não viver prisioneiros daquilo que nunca ousámos dizer. Há um preço por falar. Por vezes, é a incompreensão. Mas, quase sempre, há um preço maior por permanecer calado. E esse, muitas vezes, é o corpo que acaba por o pagar. Expressando, sempre que pudermos, sempre que conseguirmos... assim se faz o caminho. . . ....

“Porquê eu? Porquê a mim? Isto é uma injustiça!”

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  Há momentos em que a mente grita: “Porquê eu? Porquê a mim? Isto é uma injustiça!” É uma reacção humana. Mas quando este pensamento se instala ou nos revisita torna-se perigoso — não pelo que sentimos, mas pelo lugar onde ele nos deixa: presos na superfície da dor, incapazes de ver o que está por baixo. Quando acreditamos que “isto não devia estar a acontecer”, criamos uma resistência interior que nos afasta da realidade e nos afasta de nós. A energia que poderia ser usada para compreender, integrar e transformar fica bloqueada na luta contra o que já é. A verdadeira caminhada começa quando mudamos a pergunta. Em vez de “Porquê eu?”, aproximamo-nos de algo mais sábio: “O que é que isto me está a mostrar?” “Que parte de mim pede atenção?” “Que força minha está a tentar regressar à superfície?” Não se trata de romantizar a dor. Trata-se de recuperar o poder que perdemos quando nos colocamos no papel de vítimas da vida. A vida não nos castiga. A vida revela. E, muitas vezes, revela ...

Efeito Halo

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  Às vezes, conhecemos alguém e, em poucos minutos, sentimos que encontrámos uma pessoa extraordinária. Bonita, carismática, confiante… e de repente projectamos nela todas as qualidades que desejamos: inteligência, bondade, lealdade, maturidade. Isso não é amor à primeira vista. Isso é o Efeito Halo(1) a funcionar. O teu cérebro cria uma auréola dourada em torno dessa pessoa e começa a ignorar ou minimizar os sinais vermelhos.  Um sorriso encantador tapa a falta de respeito.  Uma conversa fluida esconde a ausência de valores.  Uma aparência cuidada encobre um carácter ainda por descobrir. Protege-te. Não entregues o teu coração a uma ilusão brilhante. Permite-te sentir a atracção — ela é natural e bonita —, mas nunca pares de observar com olhos claros.  Pergunta a ti mesmo: Estou a gostar da pessoa real ou da imagem que o meu cérebro criou? Será que estou a ignorar comportamentos que, noutra pessoa, não aceitaria? Estou a apaixonar-me ou a deslumbrar-me? O verda...

A fronteira

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A fronteira entre nos sentirmos vítimas de um passado difícil ou heróis-resistentes desse mesmo passado é incrivelmente difícil de atravessar. Às vezes parece uma muralha de betão intransponível que se alimenta da nossa dor, fazendo o sofrimento persistir. Alimentado pela nossa legítima mágoa ou compreensível ressentimento. Mas, respeitando profundamente tudo o que foi vivido, atravessar essa fronteira é mesmo possível. E eu tenho tido a sorte de aprender com vários Mestres esse trabalho tão difícil e esse caminho que parece "impossível". E todos eles me mostram que a muralha de betão existe. Mas nós não somos a muralha. Somos quem pode olhar para ela, tocá-la, e decidir que não precisa de nos definir para sempre. O que eles me mostram (e que talvez ressoe contigo) é que a vítima vive no passado como prisão. O herói-resistente vive no passado como solo. O solo é duro, tem pedras, mas é exatamente aí que se planta algo novo. O compreensível ressentimento é uma forma de le...

A Sabedoria de Saber o que Ignorar

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*artigo publicado na revista Saúde Actual - Jul/Agosto 2026 William James, um dos fundadores da psicologia moderna, na sua obra “The Principles of Psychology” escreveu em 1890 que "a arte de ser sábio é saber o que ignorar". À primeira vista, esta frase pode soar estranha. Afinal, não será importante estar informado? Não deveremos prestar atenção ao que se passa à nossa volta? Não será perigoso ignorar? A questão está precisamente no significado da palavra. Ignorar não é fingir que algo não existe. Não é virar a cara. Não é enfiar a cabeça na areia. Não é recusar tomar partido quando a consciência pede uma posição. Não é viver numa bolha artificial onde só entram as notícias, as ideias ou as emoções que nos agradam. A sabedoria de saber o que ignorar é algo muito diferente. É a capacidade de escolher, de forma consciente, aquilo a que damos a nossa atenção, o nosso tempo e a nossa energia emocional. Talvez esta seja uma das competências mais importantes do nosso te...