Alzheimerização
Há uns dias, numa das minhas viagens de comboio para o Porto tive a oportunidade (talvez felicidade) de ter nas cadeiras à minha frente um casal de idosos cuja conversa fui observando. Neste casal, a mulher era nitidamente o elemento dominante. O pobre homem mal se ouvia e das poucas vezes que falava conseguia-se perceber mais pela resposta da mulher do que por aquilo que ele di zia. E a resposta da mulher era, invariavelmente, um chorrilho de afirmações críticas quase degradantes. Coisas como: “Lá estás tu…”; “Então mas nem disso te lembras…”; “Tu sabes lá…”; “És sempre a mesma coisa…”; “Então mas eu não te disse já…”; “Ai essa cabeça…”; “Mas tu não sabes o que dizes?”; “Ai homem, homem, cada vez estás pior…”; etc, etc, etc. E assim continuou durante duas horas e meia e por mais de trezentos quilómetros a uma velocidade sub-tgv. Enquanto ia ouvindo esta conversa-monólogo ia pensando sobre o impacto que será ter uma companheira daquelas na nossa vida. Poderia ser o contrário, assu...