Podemos dizer-nos coisas muito violentas


Podemos dizer-nos coisas muito violentas.

Coisas duras.

Coisas como:

«Vai correr tudo mal.»

«Não vais conseguir.»

«Vais perder tudo novamente.»

«Vais falhar.»

«Vais sempre sentir esta dor.»

«Nunca vais melhorar da ansiedade. Isto nunca vai parar.»

«Vais sofrer.»


E, por mais que tentemos contrariar esta conversa, por vezes parece impossível.

Sentimo-la como um inimigo. Uma espécie de carrasco interior.


Mas será que esta conversa tem alguma intenção?

Será que, de alguma forma, está a tentar proteger-nos?

Será que está a tentar poupar-nos à desilusão?

Se eu esperar o pior, talvez a desilusão seja menor.

Se eu acreditar que vou falhar, talvez o fracasso não doa tanto.

Se eu me convencer de que nada vai mudar, talvez não tenha de voltar a ter esperança.


O problema é que, nesta tentativa de nos protegermos da desilusão, podemos acabar a viver permanentemente dentro dela.


E, muitas vezes, esta voz não está a tentar destruir-nos.

Está a tentar proteger-nos.

Só que aprendeu a fazê-lo através do medo.


Talvez a questão não seja:

«Como é que eu faço para deixar de pensar estas coisas?»

Mas antes:

«De que é que esta parte de mim está a tentar proteger-me?»


Porque, por vezes, por detrás de um pensamento como «vais sofrer» pode estar uma parte de nós a dizer:

«Eu não quero que sofras outra vez.»

E talvez seja importante começar por lhe responder:

«Eu sei.

Eu também não quero.

Mas não preciso de sofrer agora, antecipadamente, por tudo aquilo que poderá nunca vir a acontecer.»


É verdade que a desilusão pode ser grande.

E pode trazer dor.

Mas sempre que conseguimos, nem que seja apenas um pouco, conquistamos alguma coisa.

Um passo.

Uma pequena vitória.

Um momento de alívio.

Uma nova possibilidade.


E talvez seja importante lembrar-nos de que o medo de uma possível desilusão não pode impedir-nos de viver todas as coisas boas que também podem acontecer.

Porque, se tentarmos proteger-nos de toda a dor possível, acabamos também por nos afastar de todas as conquistas possíveis.


E, às vezes, precisamos de arriscar.

Não porque tenhamos a certeza de que tudo vai correr bem.

Mas porque, apesar da possibilidade de a vida nos desiludir, também existe a possibilidade de ela nos surpreender.


Entretanto, talvez consigamos ensinar-nos a sentir a desilusão de uma forma diferente - mais serena, mais tranquila, menos dorida...


Assim se faz o caminho.

. . .

MarioRuiSantos.net

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