A Sabedoria de Saber o que Ignorar



*artigo publicado na revista Saúde Actual - Jul/Agosto 2026

William James, um dos fundadores da psicologia moderna, na sua obra “The Principles of Psychology” escreveu em 1890 que "a arte de ser sábio é saber o que ignorar".
À primeira vista, esta frase pode soar estranha.
Afinal, não será importante estar informado? Não deveremos prestar atenção ao que se passa à nossa volta? Não será perigoso ignorar?


A questão está precisamente no significado da palavra. Ignorar não é fingir que algo não existe. Não é virar a cara. Não é enfiar a cabeça na areia. Não é recusar tomar partido quando a consciência pede uma posição. Não é viver numa bolha artificial onde só entram as notícias, as ideias ou as emoções que nos agradam.


A sabedoria de saber o que ignorar é algo muito diferente. É a capacidade de escolher, de forma consciente, aquilo a que damos a nossa atenção, o nosso tempo e a nossa energia emocional.

Talvez esta seja uma das competências mais importantes do nosso tempo.


Ao longo da maior parte da História da Humanidade, o desafio era obter informação. Hoje o desafio é sobreviver ao excesso dela. Nunca tivemos acesso a tantas notícias, opiniões, comentários, alertas, vídeos, previsões, polémicas e pedidos de atenção. A cada minuto alguém tenta captar o nosso olhar, provocar uma reacção, despertar uma emoção ou influenciar uma decisão.


Vivemos numa verdadeira guerra pela atenção.

E esta guerra não acontece apenas nos ecrãs. Acontece dentro da nossa mente.

Todos os dias somos convidados a indignar-nos, a preocupar-nos, a temer, a desejar, a comparar-nos, a discutir, a tomar partido, a reagir. Há sempre mais um motivo para ficarmos zangados, mais uma razão para nos sentirmos insuficientes, mais uma ameaça iminente, mais uma urgência que exige resposta imediata.


O problema não é que estas coisas existam. O problema surge quando deixamos de escolher conscientemente e passamos a reagir automaticamente.

Uma pessoa pode passar horas a alimentar pensamentos que nada acrescentam à sua vida. Pode investir uma quantidade enorme de energia emocional em situações sobre as quais não tem qualquer influência. Pode transformar a sua mente numa sala de espera cheia de preocupações que talvez nunca aconteçam.

E, enquanto isso, a vida real continua à espera.


A atenção é um recurso limitado. Sempre que a entregamos a alguma coisa, retiramo-la de outra. Cada minuto passado a alimentar uma preocupação inútil é um minuto que não está disponível para amar, criar, aprender, descansar, crescer ou simplesmente viver.


Assim, o autoconhecimento ou de desenvolvimento pessoal implica TAMBÉM aprender a observar aquilo que merece realmente a nossa atenção.

Nem todos os pensamentos merecem ser acreditados.

Nem todas as emoções merecem ser alimentadas.

Nem todas as críticas merecem ser absorvidas.

Nem todas as discussões merecem ser travadas.

Nem todas as batalhas merecem ser lutadas.


Existe uma enorme diferença entre estar consciente e estar absorvido.

Uma pessoa consciente vê o que acontece. Reconhece os factos. Avalia as circunstâncias. Assume as suas responsabilidades. Toma decisões.


Uma pessoa absorvida perde-se. Fica presa em ciclos de reacção emocional. É arrastada por tudo o que lhe aparece pela frente. Vive em função dos estímulos externos.


Ignorar, no sentido mais profundo da palavra, é um acto de liberdade interior.

É dizer: "Vejo isto, reconheço que existe, mas escolho não entregar a minha energia a este assunto."

Nem sempre é fácil. Muitas vezes o nosso ego quer responder. Quer justificar-se. Quer vencer a discussão. Quer provar que tem razão. Quer controlar aquilo que está fora do seu alcance.

Mas a maturidade psicológica consiste precisamente em reconhecer que nem tudo exige a nossa participação.


Há problemas que precisam de acção.

Há problemas que precisam de reflexão.

E há problemas que apenas precisam de ser deixados em paz.


Muitas pessoas procuram o desenvolvimento pessoal como se este consistisse em acrescentar mais alguma coisa àquilo que já são: mais conhecimento, mais técnicas, mais competências, mais estratégias.

Mas, por vezes, crescer implica exactamente o contrário.

Implica deixar de alimentar determinados pensamentos.

Deixar de seguir determinadas narrativas.

Deixar de investir energia em determinadas preocupações.

Deixar de carregar pesos que nunca nos pertenceram.


Talvez a sabedoria não seja apenas a arte de aprender. Talvez seja também a arte de desaprender.

A arte de distinguir o essencial do acessório.

A arte de separar o que merece a nossa presença daquilo que apenas disputa a nossa atenção.


Num mundo onde tantos procuram controlar aquilo que vemos, sentimos e pensamos, a capacidade de escolher conscientemente o foco da nossa atenção torna-se um acto de autonomia.

E talvez seja esse um dos sinais mais claros de crescimento interior.

Não reagir a tudo.

Não seguir todos os pensamentos.

Não alimentar todas as emoções.

Não entrar em todas as guerras.

Porque, muitas vezes, a qualidade da nossa vida não depende apenas daquilo a que dizemos "sim".

Depende também daquilo a que aprendemos, serenamente, a dizer "não".


Assim se vai fazendo o caminho.


Mário Rui Santos
hipnoterapeuta – www.Hipnose.pro  
formador da Hypnos/A-GPHM – www.Hipnoterapia.pro
presidente da Associação-Grupo Português de Hipnose e Motivação – www.Hipno.pt

*a pedido do autor, este texto não segue as normas do acordo ortográfico


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