A Sabedoria de Saber o que Ignorar
William James, um dos fundadores da psicologia moderna, na sua obra “The
Principles of Psychology” escreveu em 1890 que "a arte de ser sábio é
saber o que ignorar".
À primeira vista, esta frase pode soar estranha.
Afinal, não será importante estar informado? Não deveremos prestar atenção ao
que se passa à nossa volta? Não será perigoso ignorar?
A questão está precisamente no significado da palavra. Ignorar não é fingir que
algo não existe. Não é virar a cara. Não é enfiar a cabeça na areia. Não é
recusar tomar partido quando a consciência pede uma posição. Não é viver numa
bolha artificial onde só entram as notícias, as ideias ou as emoções que nos
agradam.
A sabedoria de saber o que ignorar é algo muito diferente. É a capacidade de
escolher, de forma consciente, aquilo a que damos a nossa atenção, o nosso
tempo e a nossa energia emocional.
Talvez
esta seja uma das competências mais importantes do nosso tempo.
Ao longo da maior parte da História da Humanidade, o desafio era obter
informação. Hoje o desafio é sobreviver ao excesso dela. Nunca tivemos acesso a
tantas notícias, opiniões, comentários, alertas, vídeos, previsões, polémicas e
pedidos de atenção. A cada minuto alguém tenta captar o nosso olhar, provocar
uma reacção, despertar uma emoção ou influenciar uma decisão.
Vivemos numa verdadeira guerra pela atenção.
E esta
guerra não acontece apenas nos ecrãs. Acontece dentro da nossa mente.
Todos os
dias somos convidados a indignar-nos, a preocupar-nos, a temer, a desejar, a
comparar-nos, a discutir, a tomar partido, a reagir. Há sempre mais um motivo
para ficarmos zangados, mais uma razão para nos sentirmos insuficientes, mais
uma ameaça iminente, mais uma urgência que exige resposta imediata.
O problema não é que estas coisas existam. O problema surge quando deixamos de
escolher conscientemente e passamos a reagir automaticamente.
Uma
pessoa pode passar horas a alimentar pensamentos que nada acrescentam à sua
vida. Pode investir uma quantidade enorme de energia emocional em situações
sobre as quais não tem qualquer influência. Pode transformar a sua mente numa
sala de espera cheia de preocupações que talvez nunca aconteçam.
E,
enquanto isso, a vida real continua à espera.
A atenção é um recurso limitado. Sempre que a entregamos a alguma coisa,
retiramo-la de outra. Cada minuto passado a alimentar uma preocupação inútil é
um minuto que não está disponível para amar, criar, aprender, descansar,
crescer ou simplesmente viver.
Assim, o autoconhecimento ou de desenvolvimento pessoal implica TAMBÉM
aprender a observar aquilo que merece realmente a nossa atenção.
Nem todos
os pensamentos merecem ser acreditados.
Nem todas
as emoções merecem ser alimentadas.
Nem todas
as críticas merecem ser absorvidas.
Nem todas
as discussões merecem ser travadas.
Nem todas
as batalhas merecem ser lutadas.
Existe uma enorme diferença entre estar consciente e estar absorvido.
Uma
pessoa consciente vê o que acontece. Reconhece os factos. Avalia as
circunstâncias. Assume as suas responsabilidades. Toma decisões.
Uma pessoa absorvida perde-se. Fica presa em ciclos de reacção emocional. É
arrastada por tudo o que lhe aparece pela frente. Vive em função dos estímulos
externos.
Ignorar, no sentido mais profundo da palavra, é um acto de liberdade interior.
É dizer:
"Vejo isto, reconheço que existe, mas escolho não entregar a minha energia
a este assunto."
Nem
sempre é fácil. Muitas vezes o nosso ego quer responder. Quer justificar-se.
Quer vencer a discussão. Quer provar que tem razão. Quer controlar aquilo que
está fora do seu alcance.
Mas a
maturidade psicológica consiste precisamente em reconhecer que nem tudo exige a
nossa participação.
Há problemas que precisam de acção.
Há
problemas que precisam de reflexão.
E há
problemas que apenas precisam de ser deixados em paz.
Muitas pessoas procuram o desenvolvimento pessoal como se este consistisse em
acrescentar mais alguma coisa àquilo que já são: mais conhecimento, mais
técnicas, mais competências, mais estratégias.
Mas, por
vezes, crescer implica exactamente o contrário.
Implica
deixar de alimentar determinados pensamentos.
Deixar de
seguir determinadas narrativas.
Deixar de
investir energia em determinadas preocupações.
Deixar de
carregar pesos que nunca nos pertenceram.
Talvez a sabedoria não seja apenas a arte de aprender. Talvez seja também a
arte de desaprender.
A arte de
distinguir o essencial do acessório.
A arte de
separar o que merece a nossa presença daquilo que apenas disputa a nossa
atenção.
Num mundo onde tantos procuram controlar aquilo que vemos, sentimos e pensamos,
a capacidade de escolher conscientemente o foco da nossa atenção torna-se um
acto de autonomia.
E talvez
seja esse um dos sinais mais claros de crescimento interior.
Não
reagir a tudo.
Não
seguir todos os pensamentos.
Não
alimentar todas as emoções.
Não
entrar em todas as guerras.
Porque,
muitas vezes, a qualidade da nossa vida não depende apenas daquilo a que
dizemos "sim".
Depende
também daquilo a que aprendemos, serenamente, a dizer "não".
Assim
se vai fazendo o caminho.
Mário Rui
Santos
hipnoterapeuta – www.Hipnose.pro
formador da Hypnos/A-GPHM – www.Hipnoterapia.pro
presidente da Associação-Grupo Português de Hipnose e Motivação – www.Hipno.pt
*a pedido do autor, este texto não segue as normas do
acordo ortográfico
Comentários