*Auto-respeito e limites
Ao longo da vida, vamos desenvolvendo formas de nos
protegermos, de nos adaptarmos e de encontrarmos o nosso lugar no mundo.
E muitas dessas formas surgem por boas razões.
Por vezes aprendemos a ser mais tolerantes, mais
disponíveis, mais compreensivos, porque isso nos ajudou a criar ligações, a
evitar conflitos ou simplesmente a sentir que pertencíamos.
Mas aquilo que num momento foi uma solução, nem sempre
continua a servir-nos da mesma forma ao longo do tempo.
E talvez seja interessante considerar que o caminho do crescimento nem sempre
passa por acrescentar algo novo.
Por vezes passa também por questionar silenciosamente
algumas das ideias que carregamos há anos sem as examinar.
Ideias sobre aquilo que devemos suportar.
Sobre aquilo que devemos aceitar.
Sobre aquilo que acreditamos ser a nossa responsabilidade.
Porque, por mais compreensivos, generosos ou disponíveis que procuremos ser,
existe uma diferença importante entre acolher os outros e abandonar-nos a nós
próprios.
E talvez uma parte mais profunda de si já saiba exactamente
onde essa diferença existe.
Talvez já conheça os momentos em que diz "sim"
quando gostaria de dizer "não".
Os momentos em que compreende os outros, mas deixa de
compreender as suas próprias necessidades.
Os momentos em que cuida de tudo e de todos, excepto de si.
E não se trata de se tornar menos amável.
Trata-se, talvez, de descobrir uma forma mais equilibrada de
o ser.
Porque estabelecer limites saudáveis não é erguer muros.
É aprender a reconhecer onde termina a sua responsabilidade
e onde começa a responsabilidade do outro.
É compreender que permitir que alguém fique momentaneamente desconfortável nem
sempre é uma forma de rejeição.
Por vezes é uma forma de sinceridade.
Uma forma tranquila de dizer:
"Isto não me faz bem."
"Isto não está alinhado comigo."
"Isto é mais do que estou disposto a carregar."
E talvez descubra que o desconforto que surge quando começa a ocupar esse
espaço não é um sinal de que está a fazer algo errado.
Talvez seja apenas o sinal de que está a fazer algo
diferente.
Porque qualquer mudança significativa pede tempo para ser integrada.
Pede paciência.
Pede repetição.
Pede a coragem tranquila de continuar, mesmo quando uma
parte antiga de nós sugere regressar ao que é familiar.
E poderá ser útil prestar atenção, nos próximos dias, a pequenos momentos.
Momentos simples.
Momentos aparentemente insignificantes.
Aquelas ocasiões em que pode escutar-se um pouco mais.
Respeitar-se um pouco mais.
Reconhecer um sentimento antes de o afastar.
Reconhecer uma necessidade antes de a ignorar.
Porque cada um desses pequenos gestos envia uma mensagem importante ao seu
interior.
A mensagem de que está a ouvir.
A mensagem de que aquilo que sente merece consideração.
A mensagem de que a sua experiência tem valor.
E quando essa mensagem é repetida vezes suficientes, algo começa naturalmente a
mudar.
Talvez não de forma imediata.
Talvez não de forma dramática.
Mas de forma consistente.
Como uma semente que cresce em silêncio.
Como um corpo que aprende gradualmente que já não precisa de
permanecer em estado de alerta constante.
Como uma mente que começa a confiar que pode existir mais
equilíbrio, mais autenticidade e mais serenidade.
Por isso, ofereça a si próprio esse compromisso.
Não um compromisso de perfeição.
Mas um compromisso de presença.
De atenção.
De respeito por aquilo que é verdadeiro para si.
E permita-se recordar que cada acto de auto-respeito, cada
limite saudavelmente mantido e cada escolha alinhada consigo próprio é um passo
tranquilo, mas significativo, na direcção do bem-estar que merece.
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