*Muitas vezes começamos, ainda na infância, a acelerar a nossa mente...
Muitas vezes começamos, ainda na infância, a acelerar a
nossa mente...
Aprendemos cedo que há muito para fazer, muito para
alcançar, muito para viver. Aprendemos que o mundo se move depressa, que
existem responsabilidades, problemas para resolver, desafios para ultrapassar e
preocupações às quais devemos prestar atenção.
E, pouco a pouco, vamos treinando a mente para correr.
Primeiro porque vemos os outros fazê-lo.
Depois porque acreditamos que é assim que a vida funciona.
E, por fim, porque a própria correria se torna familiar.
Aprendemos que é suposto ser assim.
Ensinamo-nos a ser assim.
E uma das razões mais profundas pelas quais nos ensinamos a ser assim é porque,
algures dentro de nós, acreditamos que só seremos aceites se acompanharmos o
ritmo dos outros.
Que, para pertencer, é preciso correr.
Que, para ser amado, é preciso corresponder.
Que, para ser valorizado, é preciso fazer mais, pensar mais,
preocupar-se mais.
E quando uma pessoa começa a imaginar uma forma diferente de viver... surge frequentemente
uma resistência.
Uma hesitação.
Um medo difícil de explicar.
Porque uma parte de nós pode perguntar:
"Se eu desacelerar, continuarei a pertencer?"
"Se eu mudar, continuarei a ser aceite?"
"Se eu deixar de viver como sempre vivi, quem serei
eu?"
Mas talvez seja interessante perceber que esse medo não significa que exista
perigo.
Muitas vezes significa apenas que estamos a aproximar-nos de
algo novo.
Porque o que é familiar nem sempre é aquilo que nos faz bem.
É apenas aquilo que conhecemos.
E há uma diferença importante entre sentir-se ligado aos outros... e sentir-se
preso a velhos padrões.
Pode pertencer sem se esgotar.
Pode ser aceite sem se sacrificar.
Pode continuar ligado aos outros enquanto aprende a estar
mais ligado a si.
E talvez, à medida que vai reconhecendo isto, uma parte mais profunda possa
começar a compreender que desacelerar não é afastar-se da vida.
É aproximar-se dela.
Que abrandar os pensamentos não significa perder
capacidades.
Significa recuperar espaço.
Espaço para sentir.
Espaço para respirar.
Espaço para ouvir aquela voz tranquila que tantas vezes fica
escondida atrás do ruído.
E talvez descubra que, quando se permite abrandar um pouco, não perde a
ligação.
Pelo contrário.
Começa a encontrar uma ligação diferente.
Mais autêntica.
Mais serena.
Mais próxima daquilo que realmente é.
Porque existe uma parte de si que não precisa de correr para merecer.
Não precisa de provar para pertencer.
Não precisa de fazer mais para ser suficiente.
E quanto mais essa parte for sendo reconhecida... mais natural poderá tornar-se
a experiência de simplesmente estar.
Aqui.
Agora.
Respirando.
E percebendo, finalmente, que talvez a paz nunca tenha estado à frente, à
espera de ser alcançada.
Talvez tenha estado sempre dentro de si, à espera de ser
escutada.
. . .
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