O vazio e a vontade de sermos amados
Quando na nossa infância, por alguma razão, não recebemos a expressão de amor, carinho ou afecto de que necessitávamos, pode ficar em nós uma memória emocional de vazio. Por vezes é discreta e quase imperceptível; outras vezes manifesta-se como uma saudade indefinida, um sentimento difícil de explicar, mas que nos acompanha ao longo da vida.
E, sem nos apercebermos, podemos começar a procurar fora de nós aquilo que, em tempos, sentimos ter faltado dentro de nós. Surge então uma pessoa, uma situação ou uma promessa que parece encaixar exactamente nesse espaço antigo. Algo em nós desperta. Sentimos entusiasmo, esperança, encantamento. Como se, finalmente, estivéssemos prestes a encontrar aquilo que sempre procurámos.
Nesses momentos, é fácil esquecermo-nos de nós próprios. É fácil começar a dar cada vez mais atenção ao vislumbre daquilo que desejamos encontrar e cada vez menos atenção aos sinais da realidade. E, enquanto tentamos confirmar que aquela promessa é verdadeira, podemos acabar por nos afastar da nossa própria essência, das nossas necessidades e dos nossos limites.
No entanto, quando aprendemos a reconhecer em nós este antigo anseio, algo importante começa a mudar. Tornamo-nos mais conscientes. Mais atentos. Mais capazes de distinguir entre aquilo que realmente nos nutre e aquilo que apenas desperta uma esperança antiga.
Porque o desejo de sermos amados é legítimo. O desejo de sermos vistos, acolhidos e valorizados merece respeito. E quanto mais aprendemos a olhar para esse desejo com ternura, menos necessidade teremos de o entregar nas mãos dos outros.
Muitas vezes, a verdadeira cura começa quando deixamos de procurar alguém que preencha o vazio e começamos, tranquilamente, a permanecer na nossa companhia. À medida que aprendemos a ouvir-nos, a cuidar-nos e a reconhecer o nosso próprio valor, algo interessante acontece: o vazio deixa de ser um abismo e transforma-se num espaço de presença.
E talvez possamos descobrir, pouco a pouco, que aquilo que procurávamos desesperadamente no exterior não era amor vindo de outra pessoa, mas antes a capacidade de reconhecer o amor que já existe dentro de nós. Um amor que cresce sempre que nos tratamos com respeito. Que se fortalece sempre que colocamos limites saudáveis. Que se aprofunda sempre que escolhemos permanecer fiéis a nós próprios.
Então, quando um novo vislumbre surgir no horizonte, poderemos apreciá-lo sem nos perdermos nele. Poderemos aproximar-nos sem nos anularmos. Poderemos amar sem deixar de ser quem somos.
E, talvez nesse momento, percebamos que a verdadeira liberdade não consiste em encontrar alguém que nos complete, mas em recordar que nunca estivemos verdadeiramente incompletos. Que aquela criança que um dia sentiu falta de amor continua dentro de nós, aguardando apenas que a abracemos com a consciência, a compaixão e a maturidade que hoje possuímos.
E quando isso acontece, já não caminhamos movidos pela carência. Caminhamos guiados pela presença. E há uma enorme diferença entre procurar amor para preencher um vazio e partilhar amor a partir de um coração que aprendeu, finalmente, a sentir-se inteiro.
. . .
Talvez seja importante esclarecer que este caminho de maior consciência, de auto-respeito e de uma presença mais amorosa para connosco próprios não significa desistirmos do desejo de amar nem da esperança de encontrar alguém com quem partilhar a vida.
Antes pelo contrário. Quando aprendemos a tornar-nos uma das melhores companhias de nós próprios, não fechamos a porta ao amor. Abrimos espaço para um amor mais verdadeiro.
Deixamos de procurar alguém que venha salvar-nos de um vazio antigo e passamos a estar disponíveis para encontrar alguém com quem possamos caminhar lado a lado, sem dependência, sem idealizações excessivas e sem necessidade de nos abandonarmos a nós próprios.
E é muitas vezes neste processo que nos aproximamos daquilo que realmente desejamos. Porque quanto mais nos conhecemos, nos respeitamos e cuidamos de nós, mais capazes nos tornamos de reconhecer uma companhia autêntica quando ela surge.
Uma companhia que não se alimenta da carência, mas da partilha. Que não se sustenta na ilusão de completar o outro, mas no prazer de dois seres humanos inteiros escolherem aproximar-se. E talvez seja precisamente isso que nos torna mais disponíveis para uma relação real, madura e profundamente amorosa.
Afinal, curar as feridas do passado não significa deixar de precisar dos outros. Significa apenas deixar de pedir ao amor aquilo que ele nunca teve a obrigação de fazer, para podermos receber, quando chegar, o amor que verdadeiramente merecemos.
. . .
Comentários