A Ilusão do Controlo


Há pessoas que passam grande parte da vida a tentar manter tudo sob controlo. Planeiam, antecipam, organizam, prevêem. Procuram reduzir ao mínimo a possibilidade de erro, surpresa ou imprevisto. E, muitas vezes, acreditam que fazem isso porque são responsáveis, cuidadosas ou simplesmente porque gostam que tudo corra bem.

Mas, por vezes, existe algo mais profundo.

Porque aquele que sente uma necessidade constante de controlar nem sempre está a tentar controlar o futuro. Muitas vezes, está apenas a tentar evitar reencontrar um passado que ainda dói.

E é curioso como a mente aprende a proteger-nos.
Depois de certos momentos difíceis, de algumas dores que ficaram por resolver, de experiências que deixaram marcas invisíveis, ela começa a associar o inesperado ao sofrimento. Como se cada surpresa transportasse consigo uma ameaça. Como se cada mudança pudesse abrir novamente uma porta que se desejava manter fechada.

E então, sem se aperceber plenamente disso, a pessoa começa a vigiar a vida.
Tenta prever o que os outros vão dizer. Tenta antecipar o que poderá acontecer. Tenta preparar-se para todos os cenários. E quanto mais faz isso, mais acredita que precisa de continuar a fazê-lo.

Talvez possa ser interessante reparar numa coisa.
Aquilo que parecia liberdade transforma-se, lentamente, numa prisão.
Porque quando alguém sente que nunca pode perder o controlo, deixa de viver a vida tal como ela surge e passa a viver numa permanente tentativa de a gerir.

E talvez, algures dentro de si, exista uma parte mais sábia que já começou a compreender isto.
Uma parte que sabe que o problema nunca foi o inesperado.
Uma parte que sabe que o verdadeiro peso não está naquilo que poderá acontecer amanhã, mas naquilo que aconteceu ontem e ainda pede atenção.

E enquanto lê estas palavras, poderá notar que algumas feridas não precisam de ser evitadas para sempre. Precisam apenas de ser reconhecidas.
Porque aquilo que é acolhido pode transformar-se.
Aquilo que é compreendido pode acalmar-se.
E aquilo que é curado deixa de precisar de controlar.

Talvez seja por isso que algumas pessoas descobrem, a certa altura, que a verdadeira força não consiste em ter sempre o controlo.
Consiste em sentir-se suficientemente seguro para o largar.
Nem por completo. Nem de uma só vez.
Apenas o suficiente para respirar mais fundo.

O suficiente para confiar um pouco mais na vida.
O suficiente para perceber que o passado já não está a acontecer agora.
E que a pessoa que sofreu nesse tempo não é exactamente a mesma pessoa que está aqui hoje.

Porque quando a ferida começa a sarar, a necessidade de vigiar diminui.
Quando a dor encontra compreensão, a tensão perde utilidade.

E quando finalmente se faz as pazes com aquilo que aconteceu, descobre-se algo surpreendente:
Que a liberdade nunca esteve em controlar tudo.
A liberdade esteve sempre em deixar de ser controlado pelo que ficou por curar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Um caminho para a Luz, apenas um caminho...

Os 10 mandamentos e os 7 pecados mortais ou as 10 directivas e as 7 virtudes da nova ordem