O medo do desamparo

 


Poucas pessoas me falam directamente deste medo, mas muitas pessoas o carregam dentro de si.

O medo do desamparo está muitas vezes ligado ao receio de nos vermos numa situação em que nos sentimos vulneráveis, desprotegidos e sem a possibilidade de sermos ajudados. Não é apenas o medo de estar sozinho. É o medo de sentir que, perante uma dificuldade, não teremos recursos suficientes dentro de nós nem apoio suficiente à nossa volta para a enfrentar.
Quem carrega este medo tende a sentir mais ansiedade em alguns momentos de solidão. Em certos casos, começa mesmo a evitar situações em que possa sentir-se dependente, exposto, vulnerável ou sem controlo.
Por detrás deste evitamento existe frequentemente uma tentativa de garantir que nunca voltará a sentir aquele desamparo que, em algum momento da vida, conheceu.
Como acontece com quase todos os medos profundos, há normalmente uma história pessoal que ajuda a compreender a sua origem.
Algumas das experiências que podem contribuir para o surgimento deste medo incluem situações de abandono ou separação na infância, pais emocionalmente indisponíveis ou imprevisíveis, experiências de doença, acidente ou perigo em que a pessoa sentiu que ninguém a poderia ajudar, negligência física ou emocional, ambientes familiares marcados pela instabilidade ou insegurança, perdas significativas, responsabilidades assumidas demasiado cedo ou experiências traumáticas nas quais a pessoa se sentiu impotente e sem protecção.
Perante este medo, algumas pessoas procuram controlar tudo. Outras evitam correr riscos. Outras tornam-se excessivamente dependentes de determinadas relações. E há ainda quem viva numa vigilância permanente em relação ao futuro, sentindo grande ansiedade perante qualquer mudança ou incerteza.
A boa notícia é que este medo pode ser transformado.
Não porque a vida passe a oferecer garantias absolutas. Nenhuma vida as oferece. Mas porque a pessoa pode gradualmente descobrir que possui muito mais recursos internos do que imaginava. Pode aprender que vulnerabilidade não é sinónimo de desamparo. E pode descobrir que, mesmo nos momentos difíceis, é capaz de encontrar dentro de si capacidades de adaptação, resistência e recuperação.
O trabalho interior passa precisamente por isto: criar experiências em que a pessoa se torna o seu próprio amparo.
Isso implica aprender a estar consigo própria nos momentos de solidão sem procurar imediatamente uma distracção ou uma fonte externa de segurança. Implica tomar pequenas decisões sem depender constantemente da validação dos outros. Implica enfrentar desafios compatíveis com as suas capacidades e descobrir, através da experiência directa, que consegue lidar com mais situações do que imaginava.
Implica também desenvolver autonomia, tolerar algum grau de incerteza, aprender a cuidar de si própria nos momentos difíceis e reconhecer os recursos que já demonstrou possuir noutras fases da vida.
E talvez um dos passos mais importantes seja aprender a pedir ajuda sem transformar essa ajuda numa necessidade absoluta. Pedir ajuda porque ela pode ser útil, não porque sem ela nos sentimos incapazes de sobreviver emocionalmente.
Paradoxalmente, a cura do medo do desamparo não está em garantir que nunca nos sentiremos desamparados. Está em descobrir, repetidamente, que mesmo quando nos sentimos vulneráveis, inseguros ou sós, existe dentro de nós uma parte capaz de sustentar a experiência.
Por mais apoio que recebamos dos outros, haverá sempre momentos da vida que teremos de atravessar por nós mesmos. E quando descobrimos que somos capazes de o fazer, algo começa a mudar.
A partir desse momento, deixamos de organizar a nossa vida em função do medo. Não porque a vulnerabilidade desapareça, mas porque deixamos de a confundir com incapacidade.
E esse é talvez o maior amparo que um ser humano pode encontrar: saber que, aconteça o que acontecer, será capaz de permanecer ao seu próprio lado.
. . .


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Um caminho para a Luz, apenas um caminho...

Despertar

Os 10 mandamentos e os 7 pecados mortais ou as 10 directivas e as 7 virtudes da nova ordem