Nunca mais me esqueci do que aquele miúdo me disse...

 



Era um miúdo que estava fechado para o mundo, isolado nos seus ecrãs entre jogos, vídeos e outros conteúdos mais ou menos inúteis.
“10 a 12 horas por dia...” dizia-me ele. “Às vezes mais!”
Enquanto eu tentava sensibilizá-lo para a vida e para o mundo que lhe estava a passar ao lado, respondeu-me:
“O mundo pouco me interessa... As pessoas não prestam...”
Fiquei a pensar naquela frase durante muito tempo.
Afinal, o problema não eram apenas os ecrãs. Os ecrãs eram o refúgio. A verdadeira questão estava na forma como aquele jovem olhava para o mundo e para os outros. Quando alguém deixa de acreditar nas pessoas, deixa também de acreditar em muitas das experiências que tornam a vida rica, significativa e humana.
Talvez tivesse sido magoado.
Talvez se tivesse sentido rejeitado, incompreendido ou desiludido demasiadas vezes. Não sei.
Mas sei que, quando perdemos a confiança nas pessoas, começamos a trocar a complexidade das relações pela facilidade absorvente dos algoritmos.
E, sem darmos por isso, vamos ficando cada vez mais ligados às máquinas e cada vez mais desligados de nós próprios.
Mas quando olho para a experiência daquele miúdo com o mundo e com a vida, sinto uma profunda empatia.
Porque sei o quanto este mundo, as pessoas e a própria sociedade podem ser cruéis, injustos, indiferentes e, por vezes, profundamente decepcionantes.
Nesse sentido, a sua reclusão, tal como a de muitas outras pessoas que tenho conhecido ao longo dos anos, é perfeitamente compreensível.
Este mundo pode ser muito difícil.
No entanto, talvez o desafio não seja fecharmo-nos para o mundo, mas permanecermos suficientemente abertos para continuarmos a descobrir aquilo que nele ainda merece ser vivido.
Um gesto de bondade inesperado. Uma conversa verdadeira. Um pôr-do-sol. Um abraço. Um momento de paz.
Porque, mesmo com tudo o que nos desilude, continua a haver beleza.
E basta, por vezes, uma pequena experiência de encanto, de ligação ou de significado para nos recordar que o mundo é mais do que as suas sombras.
Como Pessoa escreveu um dia:
"Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
E talvez seja isto...
Apesar de tudo, ainda existem pequenas grandes coisas que nos fazem sentir que vale a pena fazer parte deste mundo.
Assim se vai fazendo o caminho.
. . .


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