A dor no joelho da Josefina

 


Quando era criança, a Josefina gostava de brincar, rir, saltar... enfim, de ser criança.
A mãe, nem sempre muito favorável a estas demonstrações de energia, chamava-a constantemente à atenção para que não se magoasse.
Mas, um dia, a Josefina magoou-se a sério. Teve uma queda grave e precisou de ser operada ao joelho.
A operação correu bem. E os médicos, brincando com ela e com a mãe, diziam-lhe que o joelho tinha ficado melhor do que estava antes.
E a Josefina foi crescendo.
Mas, de vez em quando, o joelho doía-lhe. E, por vezes, doía muito.
Consultou vários médicos e despistou todas as possíveis causas para aquelas dores. Mas a resposta era sempre a mesma: estava tudo bem com o joelho. Nada justificava as dores que ela dizia sentir.
Curiosamente, já em adulta, essas dores pareciam surgir com mais intensidade em determinadas situações.
Quando precisava de fazer mudanças na sua vida, tomar decisões difíceis ou arriscar um pouco mais, o padrão repetia-se.
Mas a Josefina nunca atribuiu demasiada importância a essa coincidência.
Até que, um dia, decidiu explorar essa dor de uma forma diferente, através de um trabalho meditativo e hipnoterapêutico.
E a dor falou-lhe.
Lembrou-lhe algo que a mãe lhe tinha dito depois do acidente:
"Vês o que acontece quando não fazes o que te digo? Vês? Vês o que te acontece quando fazes o que não deves?"
Num momento de choque físico e emocional, aquilo que é dito a uma criança pode ecoar durante toda uma vida. E esse eco pode permanecer na mente ou no corpo.
Era isso que a Josefina sentia.
A dor não era apenas uma dor.
Era um eco antigo, uma mensagem gravada profundamente dentro dela, dizendo-lhe que estava a fazer algo que "não devia". E, sempre que se aproximava de uma decisão mais ousada ou de uma mudança importante, o joelho fazia-se ouvir.
Gritava.
...
Esta é a história da Josefina e do seu joelho.
Mas existem muitas Josefinas e muitas outras dores.
Todos nós carregamos alguns destes ecos no corpo. Por vezes nem nos apercebemos de que eles existem, mas estão lá.
A boa notícia é que podemos escutá-los. Podemos dialogar com o nosso corpo e ajudá-lo a compreender que já não precisa de repetir eternamente uma mensagem antiga.
Porque aquilo que um dia foi uma tentativa de protecção pode deixar de ser necessário.
E, quando o corpo percebe isso, por vezes também ele encontra uma nova forma de descansar.

Assim se vai fazendo o caminho.
. . .

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