*A criança que ainda vive em nós

 



Há feridas da infância que não desaparecem simplesmente porque crescemos.

Mudamos de idade.
Mudamos de casa.
Mudamos de relações.
Temos filhos.
Construímos uma carreira.
Aprendemos.
Tornamo-nos adultos.

Mas algumas experiências continuam connosco.

Às vezes, não como memórias claras.

Aparecem como medos.

Como ansiedade.

Como necessidade de controlar tudo.

Como dificuldade em confiar.

Como medo de ser abandonado.

Como necessidade constante de agradar.

Como perfeccionismo.

Como dificuldade em dizer «não».

Como vergonha.

Como culpa.

Como uma enorme dificuldade em aceitar críticas.

Como a sensação de nunca sermos suficientemente bons.

Como relações em que acabamos, repetidamente, por aceitar aquilo que dizemos a nós próprios que nunca deveríamos aceitar.

E, por vezes, aparecem de uma forma ainda mais estranha:

Uma reacção nossa parece-nos exagerada.

Uma situação aparentemente pequena provoca uma tristeza enorme.

Uma palavra atinge-nos profundamente.

Uma rejeição deixa-nos devastados.

Uma crítica faz-nos sentir, por momentos, novamente pequenos, impotentes ou humilhados.

E perguntamo-nos:

«Porque é que eu reajo assim?»

Talvez uma parte da resposta esteja na nossa infância.

O trauma infantil não é apenas aquilo que imaginamos

Quando ouvimos falar de trauma infantil, pensamos normalmente em acontecimentos extremos.

Abuso físico.

Abuso sexual.

Violência.

Abandono.

Perdas.

Situações de grande perigo.

E, naturalmente, estas experiências podem deixar marcas profundas.

Mas existem outras experiências, aparentemente menos dramáticas, que também podem ser emocionalmente muito importantes.

Ser constantemente criticado.

Ser humilhado.

Ser comparado com os outros.

Sentir que nunca se faz nada suficientemente bem.

Ter pais emocionalmente imprevisíveis.

Não se sentir ouvido.

Não poder chorar.

Não poder ter medo.

Ter de ser «forte».

Ter de cuidar emocionalmente de um dos pais.

Sentir que o amor depende do comportamento ou dos resultados.

Viver num ambiente onde nunca sabemos quando vai surgir uma discussão.

Sentir que não há espaço para sermos nós próprios.

E há uma coisa particularmente importante:

Uma criança pode sofrer não apenas pelo que lhe fizeram, mas também pelo que precisava e não recebeu.

Segurança.

Afecto.

Protecção.

Atenção.

Validação.

Presença.

Liberdade para errar.

Liberdade para sentir.

Liberdade para ser criança.

O que aprendemos sobre nós próprios

Talvez o mais interessante não seja apenas perguntar:

«O que me aconteceu?»

Mas também:

«O que é que eu aprendi sobre mim por causa daquilo que me aconteceu?»

Uma criança constantemente criticada pode aprender:

«Não sou suficientemente boa.»

Uma criança abandonada pode aprender:

«As pessoas acabam sempre por me deixar.»

Uma criança que teve de agradar para receber afecto pode aprender:

«Tenho de agradar aos outros para ser amada.»

Uma criança que cresceu num ambiente imprevisível pode aprender:

«Tenho de controlar tudo para estar segura.»

Uma criança que foi castigada por mostrar emoções pode aprender:

«É perigoso mostrar aquilo que sinto.»

Uma criança que teve de cuidar dos outros pode aprender:

«As necessidades dos outros são mais importantes do que as minhas.»

Estas aprendizagens podem ter sido formas de adaptação.

Podiam fazer sentido naquela altura.

O problema é que aquilo que nos ajudou a sobreviver emocionalmente quando éramos crianças pode continuar a comandar a nossa vida quando somos adultos.

E é aqui que aparece a Criança Interior

Fala-se muito da «Criança Interior».

Por vezes, a expressão pode parecer demasiado abstracta ou até demasiado «espiritual».

Mas podemos entendê-la de uma forma muito simples.

A Criança Interior pode representar a parte de nós onde continuam vivas determinadas experiências, emoções, necessidades e aprendizagens da nossa infância.

A criança que teve medo.

A criança que se sentiu sozinha.

A criança que queria ser vista.

A criança que precisava de um abraço.

A criança que queria ouvir:

«Estou aqui.»

«Não foi culpa tua.»

«Não tens de ser perfeito.»

«Podes chorar.»

«Podes ter medo.»

«Podes dizer não.»

«És importante.»

«És amado.»

«Não tens de cuidar de toda a gente.»

«Eu protejo-te.»

Talvez seja por isso que este trabalho possa ser tão poderoso.

Porque não se trata apenas de compreender intelectualmente o que aconteceu.

É possível que, durante anos, saibamos perfeitamente que tivemos uma infância difícil e, ainda assim, continuemos a reagir emocionalmente como aquela criança.

Podemos trabalhar memórias traumáticas?

Sim.

Mas existe uma diferença fundamental entre trabalhar uma memória traumática que temos e tentar descobrir uma memória que não temos.

Quando recordamos uma experiência difícil, podemos trabalhar a emoção que ficou associada a essa experiência.

A vergonha.

A culpa.

O medo.

A raiva.

A impotência.

A tristeza.

Podemos trabalhar as crenças que nasceram dessa experiência.

Podemos trabalhar os recursos que naquela altura não existiam.

Podemos aprender a olhar para aquilo que aconteceu a partir do lugar onde estamos hoje.

Mas devemos ter cuidado com a ideia de que a hipnose pode ser utilizada para «recuperar» acontecimentos esquecidos.

A memória não é uma gravação vídeo guardada dentro de nós.

É reconstruída.

E a sugestão pode influenciar aquilo que recordamos e até criar a convicção de que aconteceu algo que, na realidade, não aconteceu.

Por isso, não precisamos de descobrir mais passado para podermos trabalhar o sofrimento que existe hoje.

Não podemos mudar o que aconteceu

Esta talvez seja uma das partes mais importantes.

Não podemos voltar atrás.

Não podemos impedir aquela discussão.

Não podemos impedir aquela rejeição.

Não podemos evitar aquela perda.

Não podemos transformar os pais que tivemos nos pais que gostaríamos de ter tido.

Não podemos fazer com que aquilo que aconteceu não tenha acontecido.

Mas podemos fazer outra coisa.

Podemos voltar a esse passado com os recursos que hoje temos e que naquela altura não tínhamos.

A criança não precisava necessariamente de uma nova história.

Precisava, muitas vezes, de alguém que a acompanhasse naquela história.

Que a protegesse.

Que a ouvisse.

Que a acreditasse.

Que a abraçasse.

Que lhe dissesse que não era culpada.

E hoje, esse alguém pode ser o adulto que ela se tornou.

Não se trata de voltar a ser criança

Trata-se de deixar de estar sozinho perante aquilo que a criança viveu.

Imagina uma pessoa que foi humilhada repetidamente durante a infância.

Hoje, uma crítica pode provocar uma reacção enorme.

Racionalmente sabe que é apenas uma crítica.

Mas alguma coisa dentro dela reage como se estivesse novamente naquela situação.

Surge a vergonha.

A vontade de desaparecer.

A necessidade de se justificar.

A raiva.

O medo de ser rejeitada.

O corpo reage antes de a razão conseguir explicar.

O objectivo não é dizer à criança:

«Isso não aconteceu.»

Aconteceu.

E foi doloroso.

É poder dizer:

«Aquilo aconteceu.
Tu não tinhas os recursos para lidar com aquilo.
Não foi culpa tua.
Mas hoje já não estás naquela situação.
Hoje eu estou aqui.
Hoje podemos proteger-te.
Hoje podemos escolher de outra forma.»

Não estamos a apagar a memória.

Estamos a mudar a relação com ela.

Talvez seja isto que significa curar

Curar não significa esquecer.

Nem significa fingir que não doeu.

Nem significa dizer que «tudo acontece por uma razão».

Nem significa obrigarmo-nos a perdoar quem nos magoou.

Por vezes, curar é simplesmente conseguir olhar para aquilo que aconteceu sem continuar a ser aquela criança perante aquilo que aconteceu.

É conseguir dizer:

«Eu fui aquela criança.
Mas já não sou aquela criança.
Aquilo aconteceu comigo.
Mas aquilo não precisa de continuar a acontecer dentro de mim.»

E talvez esta seja uma das tarefas mais importantes da vida adulta:

tornarmo-nos para nós próprios o adulto de que tantas vezes precisámos quando éramos crianças.

Aquele que protege.

Que acolhe.

Que estabelece limites.

Que consola.

Que diz não.

Que permite descansar.

Que não exige perfeição.

Que não abandona.

Que não humilha.

Que não castiga por sentir.

Que fica.

Porque há uma criança que não podemos mudar.

A criança que fomos.

Mas há um adulto que podemos transformar.

Nós.

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