A procrastinação é um sintoma, não é o problema


Procrastinação é o adiamento voluntário de uma tarefa, decisão ou comportamento, apesar de sabermos que seria melhor realizá-lo naquele momento.

No entanto, esta palavra (Procrastinação) descreve um comportamento, mas não explica necessariamente a sua causa.

É um pouco como dizer que alguém «tosse».
A tosse é real, mas pode resultar de coisas muito diferentes.
Não tratamos todas as tosses da mesma maneira só porque têm o mesmo nome.

Com a procrastinação pode acontecer algo semelhante.
Duas pessoas podem deixar exactamente a mesma tarefa para amanhã e, no entanto, estarem a viver processos internos completamente diferentes.

Uma pode estar a evitar a ansiedade provocada pela tarefa.
Outra pode estar bloqueada pelo perfeccionismo.
Outra pode estar simplesmente exausta.
Outra pode não saber por onde começar.
Outra pode ter dificuldade em manter a atenção numa actividade pouco estimulante.
Outra pode estar sobrecarregada com demasiadas tarefas e incapaz de estabelecer prioridades.
Outra pode estar a evitar uma decisão porque não quer lidar com as suas consequências.
E outra pode simplesmente não considerar aquela tarefa suficientemente importante para mobilizar a sua atenção naquele momento.

Externamente, vemos a mesma coisa: não fez.
E chamamos-lhe procrastinação.

Mas internamente podem estar a acontecer coisas completamente diferentes.
É por isso que talvez seja mais útil perguntar:

«O que está a acontecer quando esta pessoa adia?»

Em vez de:

«Como fazemos para ela deixar de procrastinar?»

Porque se a procrastinação for um comportamento com uma função, eliminar o comportamento sem compreender essa função pode não resolver grande coisa.
Se alguém adia para evitar ansiedade, precisamos de trabalhar a relação com a ansiedade.
Se adia por perfeccionismo, talvez seja necessário trabalhar a necessidade de fazer tudo correctamente.
Se adia porque não consegue organizar a tarefa, talvez precise de estrutura e de estratégias de funções executivas.
Se adia porque não consegue sustentar a atenção, o problema poderá estar menos na vontade e mais na capacidade de dirigir e manter o foco.
Se adia porque está emocionalmente esgotado, talvez aquilo de que precisa não seja de mais disciplina, mas de recuperação.

E, por vezes, não há problema nenhum para resolver.
Há coisas que simplesmente não queremos fazer.
Também isso é importante distinguir.

Talvez devêssemos deixar de falar da procrastinação como se fosse uma entidade única.
A procrastinação pode ser o nome que damos a um comportamento que resulta de problemas muito diferentes.

E, quando tratamos comportamentos diferentes como se tivessem todos a mesma causa, corremos o risco de oferecer a mesma solução a pessoas que precisam de coisas completamente diferentes.

A pergunta deixa então de ser:

«Como acabar com a procrastinação?»

E passa a ser:

«Porque é que, neste caso, esta pessoa está a adiar?»

Essa mudança de pergunta pode mudar completamente a resposta.
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MarioRuiSantos.net

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