Do alto dos seus 76 anos Sebastião contava-me que em criança costumava ficar na casa da aldeia com a sua avó quando os seus pais iam trabalhar para o campo.


Um dia, com os seus 6 anos, num momento de algum mau comportamento a avó veio ter com ele e disse-lhe:

- Sebastião, estás a portar-te muito mal. A avó vai pôr-te de castigo. Agora vais ficar aqui no alpendre à espera que o homem das barbas te venha buscar.


Sebastião ficou aterrorizado e por cada carro que passava perto da casa dos seus avós as suas pernas tremiam. Lembra-se de naquele dia ter feito uma promessa para a vida:”Nunca mais me vou portar mal. Nunca mais vou ser mau para ninguém.”

E assim foi… Nunca mais foi mau para ninguém.


Agora com 76 anos, Sebastião dizia-me que essa deve ter sido a sua pior decisão.

Porque ao longo da sua vida, desde a sua infância, foi enganado, desrespeitado, traído, maltratado… mas nunca, nunca se zangou com ninguém – porque, para ele, isso significava ser uma coisa que ele não se permitia. E ele procurava ser bonzinho.


Na sua vida presente, mais consciente de si próprio, olha para aquela inocente criança com muito amor e compaixão pela triste e má decisão que tomou.

Para a avó também não olha zangado, porque compreende o cansaço e a inconsciência dela – que tantos e tantos adultos têm para com as crianças em relação às palavras que proferem.

A avó amava-o e ele a amava a ela, e nesse aspecto nada mudou.


Por vezes olha com lamento e alguma tristeza para o caminho de “bonzinho” que tomou, porque sofreu muito.

Mas foi-se ensinando que na verdade ele não estaria muito longe da razão, os outros que o desrespeitaram ou enganaram é que sim – esses estavam muito mais longe do que ele.


E assim se foi ensinando a ter um quase orgulho por ele com um grande sentimento de pena para com os outros que tanto e tanto o desrespeitaram ou enganaram.

. . .

Podemos seguir o caminho da verdade e da bondade, mas é importante que estejamos prontos para o defender ou proteger com alguma assertividade.


Algumas pessoas poderão ver essa nossa firmeza como zanga ou agressividade - porque estamos a impedi-las de serem incorrectas ou injustas para connosco.


Mas firmeza e assertividade muitas vezes têm de fazer parte da nossa verdade.

E esse é o caminho.

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