Podes ser boa pessoa. E se fores ainda bem que o és!
E isso significa que podes querer tentar ajudar pessoas que tu pensas ou sentes que precisam de ajuda.
Mas... e se algumas dessas pessoas que tanto desabafam contigo na verdade não quiserem ser ajudadas?
Será que isso te faz bem?
E será que há pessoas que se queixam, reclamam, vitimizam… mas na verdade não querem ser ajudadas?
Sim, há e isso acontece com muita frequência.
E é bom que saibas porque o fazem porque pode ser frustrante tentar ajudar alguém que parece estar num ciclo infinito de queixas - há razões profundas (e muitas vezes inconscientes) para esse comportamento:
1. O Ganho Secundário
Muitas vezes, o problema não é o que a pessoa quer resolver; o problema é o que lhe traz atenção, carinho ou validação.
Se a pessoa resolve o problema, ela perde o "direito" de receber apoio ou de ser o centro das atenções naquela interação.
A queixa torna-se a forma principal de conexão social da pessoa.
2. Identidade Baseada na Dor
Existem pessoas que integraram o sofrimento na sua própria identidade.
Elas não se veem como "alguém que tem um problema", mas sim como "uma vítima das circunstâncias".
Mudar significaria abandonar essa identidade e enfrentar o medo do desconhecido: "Quem sou eu se não for esta pessoa injustiçada?"
3. O "Sim, mas..." (Jogos Psicológicos)
O psicólogo Eric Berne descreveu isto como um jogo social. A pessoa apresenta um problema, tu dás uma solução, e ela responde: "Sim, mas no meu caso é diferente porque..."
O objetivo aqui não é resolver a questão, mas sim provar que o problema dela é insolúvel, o que lhe dá uma sensação de superioridade ou justifica a sua inércia.
4. Medo da Responsabilidade
Ajudar alguém implica, muitas vezes, que essa pessoa tenha de agir.
Enquanto ela for uma "vítima", a culpa é do mundo, do governo, da família ou da sorte.
Se ela aceitar a ajuda e a solução, a responsabilidade pelo sucesso (ou fracasso) passa a ser dela. Muitas pessoas preferem o conforto da queixa ao risco da ação.
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Tentar ajudar alguém que está "viciado" na queixa, na vitimização ou na reclamação constante, mas recusa soluções é uma das experiências mais desgastantes que existem.
O impacto em quem ajuda (neste caso, tu ou outra pessoa próxima) é real e pode ser dividido em várias camadas:
1. Fadiga por Compaixão (Burnout Relacional)
A empatia é um recurso finito. Quando despejas energia e carinho num "poço sem fundo", começas a sentir um cansaço que não passa com uma noite de sono. É o chamado esgotamento emocional. Acabas por te sentir drenado(a) só de ver o nome da pessoa no ecrã do telemóvel.
2. Sentimento de Impotência e Frustração
Quem ajuda sente que falhou. Podes começar a questionar a tua própria capacidade de aconselhar ou a tua inteligência.
O ciclo: Tu dás uma solução → A pessoa rejeita → Tu sentes-te inútil → Tu tentas com mais força ainda → A frustração acumula.
O resultado é uma sensação de "murro em ponta de faca" que gera irritabilidade e amargura.
3. Ressentimento e Culpa
Com o tempo, o carinho que sentes pela pessoa pode transformar-se em ressentimento.
Começas a sentir raiva por ela não mudar, mas logo a seguir sentes culpa por estares a ter pensamentos negativos sobre alguém que, teoricamente, "está a sofrer". Este conflito interno é psicologicamente exaustivo.
4. O Fenómeno do "Vampirismo Energético"
Não é algo místico, é neurobiológico. O cérebro humano tem neurónios-espelho que tendem a mimetizar o estado emocional de quem está à nossa frente. Se a pessoa está constantemente num estado de:
Negatividade
Vitimismo
Pessimismo
O teu sistema nervoso entra em estado de alerta ou depressão por contágio, deixando-te com dores de cabeça, tensão muscular ou desmotivação para as tuas próprias tarefas.
Os Perigos de Longo Prazo para o "Ajudador"
Se não houver um limite, quem tenta ajudar pode sofrer consequências sérias:
Isolamento Social: Começas a evitar outras pessoas porque já não tens "espaço mental" para interagir.
Negligência Própria: Gastas tanto tempo a tentar salvar o outro que deixas de cuidar dos teus próprios problemas ou objetivos.
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Há que ter alguma atenção e cuidado com este tipo de pessoas.
Como lidar com estas pessoas sem te esgotares?
Se sentes que estás a dar murros em ponta de faca, experimenta mudar a abordagem:
Ouvir sem Resolver: Em vez de dares conselhos, limita-te a dizer: "Lamento muito que estejas a passar por isso, parece difícil". Se não ofereceres soluções, ela não terá o que rejeitar.
Devolver a Bola: Pergunta: "O que é que estás a pensar fazer para resolver isso?" ou "Como achas que eu te posso ajudar concretamente?". Isto obriga a pessoa a sair do papel passivo.
Estabelecer Limites: Se a queixa se tornar tóxica, tens o direito de dizer: "Gosto muito de ti, mas não tenho capacidade para falar sobre este assunto outra vez sem vermos mudanças".
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Se estiver a ser difícil para ti distanciares-te de alguém com estas características, procura ajuda rapidamente.
Procurares ajuda para o teu bem-estar não é sinal de fraqueza é um acto de coragem.
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