A fronteira


A fronteira entre nos sentirmos vítimas de um passado difícil ou heróis-resistentes desse mesmo passado é incrivelmente difícil de atravessar.
Às vezes parece uma muralha de betão intransponível que se alimenta da nossa dor, fazendo o sofrimento persistir.
Alimentado pela nossa legítima mágoa ou compreensível ressentimento.
Mas, respeitando profundamente tudo o que foi vivido, atravessar essa fronteira é mesmo possível. E eu tenho tido a sorte de aprender com vários Mestres esse trabalho tão difícil e esse caminho que parece "impossível".
E todos eles me mostram que a muralha de betão existe.
Mas nós não somos a muralha. Somos quem pode olhar para ela, tocá-la, e decidir que não precisa de nos definir para sempre.
O que eles me mostram (e que talvez ressoe contigo) é que a vítima vive no passado como prisão. O herói-resistente vive no passado como solo. O solo é duro, tem pedras, mas é exatamente aí que se planta algo novo.
O compreensível ressentimento é uma forma de lealdade à dor. É como dizer: “Se eu esquecer ou transcender isto, traio o que sofri.” Mas os Mestres ensinam que a maior honra ao sofrimento não é carregá-lo eternamente, mas transformá-lo em luz para nós e para os outros.
E talvez essa luz nos leve a ser mais assertivos, mais firmes, mais selectivos...
Também fui aprendendo que esta travessia não é um salto mágico. É um trabalho subtil, quase invisível: reconhecer a dor sem deixar que ela nos absorva.
Sentir a raiva até ao fim, sem lhe dar o leme da nossa vida.
Encontrar, no meio dos escombros, o fio de sentido que só quem passou por aquilo podia encontrar (Frankl chamava-lhe logoterapia — o sentido que nasce precisamente do absurdo e do sofrimento).
Há um momento de viragem subtil: quando paramos de perguntar “Porquê eu?” e começamos a perguntar “E agora, o que faço com isto que só eu sei como dói?” É aí que a vítima começa a morrer e o resistente-herói começa a nascer.
Lembrando, como sugeria Sartre, que nós não somos o que nos aconteceu mas sim aquilo que fazemos com esses acontecimentos.
Respeitar profundamente tudo o que foi vivido não significa congelarmo-nos nele.
Significa carregá-lo com dignidade, mas de cabeça erguida, olhos no horizonte.
Talvez tu já estejas a atravessar essa fronteira - não é fácil.
A muralha parece intransponível até ao dia em que damos o primeiro passo do outro lado — e descobrimos que ela nunca foi tão sólida quanto a nossa mente a pintava.
Sim. Talvez já estejas nesse caminho.
Se não estiveres... esse caminho espera-te.
. . . www.linktr.ee/MarioRuiSantos


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