Frustração – Essa grande professora
- artigo publicado na revista Saúde Actual - Setembro/Outubro 2026
Há sentimentos de que gostaríamos de nos
livrar.
A
tristeza, a ansiedade, a raiva, o medo, a desilusão, a frustração...
Passamos
muitas vezes boa parte da nossa vida a tentar evitá-los, controlá-los ou
eliminá-los. Como se o desenvolvimento pessoal consistisse, de alguma forma, em
aprendermos a viver sem aquilo que nos incomoda.
Talvez
seja precisamente o contrário.
Talvez
uma parte importante do nosso desenvolvimento pessoal consista em aprendermos a
lidar melhor com aquilo que inevitavelmente faz parte da experiência humana.
E a frustração é um desses sentimentos.
É
transversal. É recorrente. E, de uma forma ou de outra, acompanha-nos ao longo
de toda a vida.
A frustração aparece quando aquilo que desejamos não acontece.
Quando
alguém não corresponde às nossas expectativas.
Quando
fazemos tudo aquilo que julgávamos necessário e, ainda assim, o resultado não é
o que esperávamos.
Quando
perdemos uma oportunidade.
Quando
somos contrariados.
Quando a
realidade não coincide com aquilo que imaginámos.
Quando
queremos mudar uma coisa que não está nas nossas mãos mudar.
E isto acontece constantemente.
Desde a
infância.
A criança
que quer um brinquedo e ouve um «não». O adolescente que não é aceite pelo
grupo. O adulto que não consegue aquele emprego. A relação que não corre como
desejava. O projecto que falha. A pessoa que nos desilude. O corpo que não
responde como gostaríamos. O tempo que passa. As coisas que não conseguimos
controlar.
A vida,
inevitavelmente, frustra-nos.
E talvez uma das maiores dificuldades da nossa época seja termos desenvolvido
uma relação cada vez mais intolerante com a frustração.
Queremos
respostas rápidas, resultados rápidos, gratificação imediata, relações sem
desconforto, soluções para os problemas e emoções que desapareçam rapidamente.
Mas a realidade não funciona assim.
Há coisas
que demoram.
Há
desejos que não se concretizam.
Há
pessoas que não mudam.
Há
injustiças que não conseguimos corrigir.
Há perdas
que não podemos evitar.
Há
situações que não podemos controlar.
E há
momentos em que, simplesmente, temos de sentir a frustração de aquilo que
queríamos não acontecer.
Isto não significa resignação.
Lidar com
a frustração não é desistir.
Não
significa aceitar passivamente tudo aquilo que nos acontece.
Nem
significa deixar de lutar por aquilo que queremos.
Significa, antes de mais, ser capaz de suportar o desconforto que existe
entre aquilo que desejamos e aquilo que a realidade nos oferece.
É uma diferença importante.
Porque,
muitas vezes, aquilo que nos faz sofrer não é apenas a frustração inicial.
É aquilo
que fazemos depois dela.
Podemos transformar a frustração em raiva.
Podemos
transformá-la em culpa.
Podemos
transformá-la em ressentimento.
Podemos
começar a procurar culpados.
Podemos
exigir que os outros reparem imediatamente aquilo que sentimos.
Podemos
entrar numa luta permanente contra a realidade.
Ou
podemos aprender a reconhecer:
«Eu
queria que tivesse sido diferente. Não foi. E isto custa-me.»
É uma frase simples.
Mas pode
representar um enorme passo no desenvolvimento emocional.
Porque
maturidade emocional não é deixar de sentir frustração.
É
conseguir sentir frustração sem sermos obrigados a reagir impulsivamente a
ela.
É
conseguir permanecer connosco mesmos quando aquilo que desejávamos não
acontece.
É
conseguir tolerar o «não».
O «ainda
não».
O «não
sei».
O «não
depende de mim».
O
«acabou».
O «não
aconteceu».
E também
o «não vai acontecer».
A capacidade de tolerar a frustração está, por isso, ligada a muitas outras
competências emocionais: à regulação emocional, à capacidade de adiar a
gratificação, à flexibilidade psicológica, à tolerância à incerteza e à
capacidade de aceitar limites.
E talvez
seja importante começarmos a olhar para ela não como um problema a eliminar,
mas como uma experiência a aprender a atravessar.
Porque a
vida não nos vai deixar de frustrar só porque aprendemos a lidar melhor com a
frustração.
Continuaremos
a ser contrariados.
Continuaremos
a perder.
Continuaremos
a esperar por coisas que não chegam.
Continuaremos
a descobrir que algumas das nossas expectativas estavam erradas.
Continuaremos
a encontrar pessoas que não pensam como nós, não sentem como nós e não fazem
aquilo que gostaríamos que fizessem.
A diferença estará na forma como respondemos.
Talvez
uma das grandes aprendizagens do desenvolvimento pessoal seja precisamente
esta: não precisamos de gostar da realidade para aprendermos a lidar com
ela.
Podemos não gostar.
Podemos
discordar.
Podemos
sentir-nos magoados.
Podemos
ficar zangados.
Podemos
desejar profundamente que tivesse sido diferente.
E, ainda
assim, podemos aprender a não ficar prisioneiros dessa frustração.
Porque crescer emocionalmente não é construir uma vida onde nada nos frustra.
É
construir dentro de nós recursos suficientes para atravessar a frustração
quando ela inevitavelmente aparece.
E ela vai
aparecer.
Uma e
outra vez.
Não
porque estejamos a fazer alguma coisa mal.
Mas
porque frustrarmo-nos também faz parte de estarmos vivos.
Assim
se vai fazendo o caminho.
Mário Rui
Santos
hipnoterapeuta – www.Hipnose.pro
formador da Hypnos/A-GPHM – www.Hipnoterapia.pro
presidente da Associação-Grupo Português de Hipnose e Motivação – www.Hipno.pt
*a pedido do autor, este texto não segue as normas do
acordo ortográfico
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