Mulheres que podem andar sozinhas

 


Ao longo dos anos tenho trabalhado com mulheres extraordinárias.
Mulheres inteligentes, sensíveis, interessantes, profundas.
Mulheres que têm tanto para oferecer ao mundo.
E, ainda assim, tantas delas fecham-se socialmente quando, naquele momento da vida, não têm um namorado ou companheiro.
Tantas partilham comigo a dificuldade em estarem mais activas socialmente.
Tantas descrevem um desconforto silencioso quando pensam em fazer programas sozinhas.
Foram tantas, mas tantas, que eu próprio fui obrigado a parar.
A reflectir.
A investigar.
A perguntar-me: de onde vem isto?
Porque é que mulheres tão capazes, tão conscientes, tão autónomas… sentem um bloqueio tão profundo?
Quando comecei a olhar para trás — para a história, para a cultura, para a forma como as mulheres foram educadas durante gerações — tudo começou a fazer sentido.
Durante décadas (e não assim há tanto tempo), as mulheres foram ensinadas que não podiam.
Não podiam viajar sozinhas.
Não podiam circular livremente.
Não podiam tomar decisões sem autorização.
Não podiam ocupar o espaço público sem serem julgadas.
A lei dizia uma coisa.
A moral dizia outra.
E o corpo aprendeu a ter medo.
Este medo não nasceu nelas.
Foi herdado.
Passado de mãe para filha, de avó para neta, de geração para geração.
Um medo subtil, silencioso, mas profundamente enraizado.
E hoje, no século XXI, mesmo com toda a liberdade conquistada, muitas mulheres ainda sentem esse eco antigo.
Um desconforto que aparece quando vão sozinhas a um café.
Quando entram num restaurante.
Quando viajam.
Quando simplesmente ocupam o mundo sem companhia.
E esse desconforto pode levar ao isolamento.
Não porque não queiram viver.
Mas porque o corpo reage como se estivesse a quebrar uma regra antiga.
E se tu que estás a ler isto és uma dessas mulheres, aqui está a parte mais importante:
Esse medo não é teu.
E, por isso mesmo, não tem de ficar contigo.
O que sentes não é um defeito.
Não é falta de coragem.
Não é imaturidade.
É história.
É herança.
É memória emocional.
E memórias podem ser ressignificadas.
Podem ser suavizadas.
Podem ser libertadas.
Cada vez que dás um passo sozinha — mesmo que pequeno — estás a curar algo que não começou em ti.
Estás a reescrever a história da tua família.
Estás a abrir espaço para que as próximas gerações cresçam sem este peso.
E talvez seja isso que importa agora:
Não forçares.
Não te culpares.
Não te comparares.
Apenas reconheceres:
“Eu posso.
Eu tenho direito.
Eu pertenço.”
E, a partir daí, ir caminhando.
Ao teu ritmo.
Com gentileza.
Com presença.
Com verdade.
E assim vais fazendo caminho.
. . .


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