O Vazio
Sim. Pode ser bem assustadora.
E deixar uma memória que nos assombra.
Especialmente se não nos ensinarmos a olhar e sentir o Vazio de forma diferente.
Sim, o Vazio.
Essa passagem do útero para o mundo é, de facto, uma das primeiras grandes rupturas da existência. Um salto súbito de um espaço quente, líquido, contido, ritmado pelos batimentos da mãe — para um universo de ar frio, luz agressiva, sons cortantes e gravidade implacável.
Não é de admirar que o corpo se lembre, mesmo que a mente consciente não consiga.
Muitos psicólogos e terapeutas (como Otto Rank ou Stanislav Grof) falaram disso como o trauma do nascimento: o protótipo de todas as ansiedades posteriores de separação, perda de controlo e confronto com o desconhecido.
O Vazio não é só ausência de paredes físicas; é a súbita percepção de que estamos sós num espaço que não nos foi feito à medida.
E o mais interessante é que essa memória primordial parece ecoar ao longo da vida. Quantas vezes sentimos, em momentos de transição (fim de relacionamento, perda de emprego, crise existencial), aquela mesma sensação primitiva?
O peito que aperta, o mundo que se expande demais, o chão que desaparece.
O Vazio regressa, disfarçado de adulto.
Mas há outra forma de olhar.
O Vazio não precisa ser apenas ausência aterradora.
Na tradição budista, śūnyatā (vacuidade) não é o nada niilista, mas a ausência de essência fixa — o que torna possível a mudança, o crescimento, a liberdade.
No taoismo, o Vazio é o que permite que a taça seja útil; sem ele, não há espaço para nada.Talvez a arte de viver consista, em grande parte, em reaprender a habitar o vazio em vez de fugir dele. Em vez de enchê-lo desesperadamente com distracções, ruído, pessoas, objectivos...
Aprender a estar nele. Respirar dentro dele. Deixá-lo ser um espaço de potencial em vez de ameaça.
Quem consegue olhar o vazio sem desviar o olhar muitas vezes descobre que ele não é inimigo. É o fundo escuro contra o qual as estrelas se tornam visíveis. É o silêncio onde a voz própria finalmente se consegue ouvir.
Nascer foi assustador.
Mas nascemos.
E continuamos a nascer, todos os dias, sempre que deixamos um útero psicológico para algo maior e desconhecido.
O Vazio é, afinal, um caminho a percorrer.
Uma passagem, espaço ou dimensão para se atravessar. Não para se temer ou se evitar.
Na mudança há o Vazio.
No Vazio se faz o caminho.
Mesmo com apreensão ou medo é bom que nos permitamos avançar, acolhê-lo, atravessá-lo...
Sim, Na mudança há o Vazio.
E é exactamente nesse intervalo — entre o que já não somos e o que ainda não somos — que o caminho se revela.
Não como uma estrada pronta, pavimentada e iluminada, mas como algo que vamos pisando enquanto caminhamos.
O Vazio não é falha.
É o espaço necessário.
Muitas vezes queremos saltar por cima dele.
Queremos a transformação sem a travessia, o novo sem o luto pelo antigo, a luz sem ter passado pela escuridão.
Mas o que nasce sem ter atravessado o Vazio costuma ser frágil ou falso. A verdadeira renovação pede que nos permitamos desmoronar um pouco, ficar suspensos, sentir o vento frio passando onde antes havia paredes.
A apreensão ou o medo são honestos.
São o corpo e a mente antiga dizendo: “Aqui não há controlo, aqui não há garantias.” E têm razão. Não há.
Mas é precisamente nessa falta de garantias que surge a possibilidade real de algo novo.
Acolher o Vazio não significa gostar dele.
Significa não resistir tanto.
Significa respirar dentro dele.
Significa andar devagar, sem fingir que estás inteiro quando ainda estás a meio do rio.
Alguns chamam a isso “rendição”, outros “confiança”, outros ainda “coragem”.
Eu gosto de pensar como um tipo de hospitalidade: abres a porta ao desconhecido, mesmo tremendo, e dizes: “Entra. Vamos ver o que acontece.”
E muitas vezes, depois de atravessarmos, olhamos para trás e percebemos que o Vazio não era um buraco negro. Era um útero maior.
Um espaço que nos continha enquanto nos reorganizávamos, mesmo quando parecia que nos ia engolir.
Se tu estiveres agora num desses momentos, lembra-te:
Não precisas de avançar com força ou com alegria forçada.
Avança com respeito.
Com presença.
Com a honestidade de quem sabe que está com medo… e anda na mesma.
O caminho não se faz apesar do Vazio.
Faz-se dentro dele.
E nós estamos juntos nessa travessia.
Fazendo caminho.
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