Desfusão Cognitiva
A Desfusão Cognitiva: Quando Percebemos que Não Somos os Nossos Pensamentos
Todos nós pensamos. Constantemente.
Pensamos acerca de quem somos, do que fizemos, do que deveríamos ter feito e do que poderá acontecer amanhã. A mente humana é uma extraordinária máquina de produção de pensamentos. O problema surge quando deixamos de distinguir entre os pensamentos que temos e a pessoa que somos.
É neste ponto que a técnica da desfusão cognitiva se torna particularmente valiosa.
O que é a desfusão cognitiva?
A desfusão cognitiva é um processo através do qual aprendemos a observar os nossos pensamentos em vez de nos confundirmos com eles.
Quando estamos fundidos com um pensamento, não o vemos como um pensamento. Vivemo-lo como uma realidade.
Por exemplo:
"Sou um fracasso."
Quando estamos fundidos com esta ideia, não questionamos a sua validade. Simplesmente assumimos que é verdadeira.
Mas quando ocorre a desfusão, a experiência muda:
"Estou a ter o pensamento de que sou um fracasso."
A frase parece semelhante, mas a diferença psicológica é enorme. A primeira define-nos. A segunda descreve um acontecimento mental.
O pensamento deixou de ser uma verdade absoluta para se transformar numa experiência observável.
A origem da desfusão cognitiva
O conceito de desfusão cognitiva tem origem na Acceptance and Commitment Therapy (ACT), desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Steven C. Hayes na década de 1980.
A ACT integra o conjunto das chamadas terapias comportamentais de terceira geração e parte de uma ideia fundamental: uma parte significativa do sofrimento humano resulta da forma como nos relacionamos com os nossos pensamentos, emoções e experiências internas.
Segundo este modelo, os seres humanos possuem uma tendência natural para se fundirem com aquilo que a mente produz. Quando isso acontece, os pensamentos deixam de ser encarados como eventos mentais transitórios e passam a ser vistos como descrições exactas da realidade.
Se uma pessoa pensa:
"Vou falhar."
Pode reagir emocionalmente como se o fracasso já estivesse garantido.
Se pensa:
"Ninguém gosta de mim."
Pode sentir-se rejeitada mesmo sem qualquer evidência que sustente essa conclusão.
Se pensa:
"Não sou suficiente."
Pode viver como se essa afirmação fosse um facto objectivo.
A ACT designa este fenómeno por fusão cognitiva.
A desfusão cognitiva surge precisamente como a capacidade de criar uma distância saudável entre a pessoa e os seus pensamentos, permitindo que estes sejam observados pelo que realmente são: palavras, imagens, crenças, memórias ou previsões produzidas pela mente.
O objectivo não consiste em eliminar pensamentos negativos nem em substituí-los por pensamentos positivos. O objectivo consiste em alterar a relação que estabelecemos com eles.
Como costuma afirmar Steven Hayes:
"Não acredites em tudo o que a tua mente te diz."
Esta perspectiva representa uma mudança profunda relativamente à ideia tradicional de que a mudança psicológica depende essencialmente da alteração dos conteúdos mentais. Na ACT, o foco centra-se menos em mudar os pensamentos e mais em mudar a forma como nos relacionamos com eles.
Porque acreditamos tanto nos nossos pensamentos?
A maioria das pessoas nunca aprendeu que os pensamentos são apenas representações da realidade e não a realidade em si.
Se a mente diz:
"Vou falhar."
Sentimos medo.
Se a mente diz:
"Ninguém gosta de mim."
Sentimo-nos rejeitados.
Se a mente diz:
"Não sou suficiente."
Sentimo-nos diminuídos.
Com o tempo, deixamos de observar estes pensamentos e passamos a habitá-los.
A mente fala. Nós acreditamos.
Um processo simples de desfusão
Embora a ACT utilize diversas estratégias para promover a desfusão cognitiva, podemos compreender este processo através de uma sequência simples e prática.
1. Thinking (Pensar)
O primeiro passo consiste em reconhecer que surgiu um pensamento.
Nem lutar contra ele nem segui-lo automaticamente.
Apenas perceber:
"Estou a pensar."
2. Naming (Nomear)
Depois identificamos aquilo que está a acontecer.
"Isto é uma preocupação."
"Isto é um medo."
"Isto é uma autocrítica."
Nomear uma experiência ajuda-nos a começar a separar-nos dela.
3. Noticing (Observar)
Passamos então a observar.
O que estou a pensar?
O que estou a sentir?
Que imagens estão associadas a este pensamento?
Deixamos de estar dentro do pensamento para começarmos a observá-lo.
4. Questioning (Questionar)
Seguidamente surge a curiosidade.
Podemos perguntar:
"Será que isto é um facto ou uma interpretação?"
"Que evidências sustentam esta ideia?"
"Existem outras formas de olhar para esta situação?"
O objectivo não é discutir com o pensamento, mas deixar de lhe atribuir automaticamente o estatuto de verdade absoluta.
5. Unidentifying (Desidentificação)
Este é um momento fundamental.
Percebemos que possuir um pensamento não significa ser esse pensamento.
Não somos o nosso medo.
Não somos a nossa culpa.
Não somos a nossa ansiedade.
Não somos a nossa vergonha.
Temos essas experiências, mas não somos essas experiências.
6. Distancing (Distanciamento)
Finalmente criamos espaço psicológico.
O pensamento continua presente, mas já não domina toda a consciência.
Passa a ser apenas um acontecimento mental entre muitos outros.
Tal como uma nuvem que atravessa o céu sem ser o céu.
O objectivo não é eliminar pensamentos
Muitas pessoas acreditam que a saúde mental depende da capacidade de pensar positivamente ou de eliminar pensamentos desagradáveis.
Contudo, quanto mais tentamos expulsar determinados pensamentos da mente, mais importância lhes atribuímos.
A desfusão propõe uma abordagem diferente.
Em vez de eliminar pensamentos difíceis, aprendemos a observá-los com maior liberdade e menor envolvimento emocional.
O pensamento pode continuar presente.
Mas deixa de controlar a forma como sentimos, decidimos e agimos.
A desfusão em hipnoterapia
Na prática da hipnoterapia encontramos frequentemente pessoas profundamente identificadas com narrativas internas construídas ao longo da vida.
"Sou fraco."
"Nunca vou conseguir."
"Há algo de errado comigo."
"Nunca serei feliz."
Através do trabalho terapêutico ajudamos o cliente a reconhecer que estas afirmações não representam necessariamente a realidade, mas antes interpretações, conclusões e aprendizagens acumuladas.
À medida que a pessoa desenvolve a capacidade de observar estas narrativas sem se fundir com elas, surge um espaço interior de maior liberdade.
E é nesse espaço que novas possibilidades podem emergir.
Embora a desfusão cognitiva tenha sido desenvolvida no âmbito da ACT, os seus princípios revelam-se extremamente úteis em hipnoterapia, especialmente quando procuramos ajudar o cliente a flexibilizar crenças limitadoras, reduzir o impacto de pensamentos automáticos e desenvolver uma relação mais saudável consigo próprio.
Conclusão
A desfusão cognitiva não nos ensina a controlar os pensamentos.
Ensina-nos algo mais importante.
Ensina-nos a deixar de ser controlados por eles.
Quando pensamos, nomeamos, observamos, questionamos, nos desidentificamos e nos distanciamos dos nossos pensamentos, começamos a descobrir uma verdade simples mas profundamente transformadora:
Tu não és aquilo que pensas.
Tu não és aquilo que sentes.
Tu não és as histórias que a tua mente conta acerca de ti.
És aquele que pode observar tudo isso.
E nessa capacidade de observar reside uma das maiores fontes de liberdade psicológica que um ser humano pode desenvolver.

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