2007/06/26

O desrotinar e o sucesso


A criação de novas palavras é uma necessidade óbvia e pouco satisfeita. E por ser tão pouco satisfeita existem os poetas que com as poucas palavras disponíveis criam descrições e encadeamentos de novos sentimentos e emoções.

Necessidade óbvia porque a riqueza de sensações e emoções das nossas vidas é crescente e criadora. Temos vidas com níveis de experiências completamente diferentes daquelas que tinhamos há 30, 20 e até mesmo de há 10 anos atrás.

Penso que é por isso que gostamos tanto de ouvir pessoas com pseudo-certezas e definições na ponta da língua: o amor é isto..., a felicidade é aquilo..., sucesso é assado..., falhar é cozido... etc. etc. Porque estas pseudo-certezas - ou definições provisórias de realidades mutantes - vão enriquecendo as nossas próprias definições de tais conceitos, e ajudam-nos a criar essas mesmas definições e formatos provisórios de conforto.

Por isso escrevo este texto para vos e me lembrar que a melhor forma de definir os vossos conceitos e formatos é... (não, não me apanham nessa)...a melhor forma mesmo...é a vossa forma. A forma que usa a vossa inteligência e a vossa força criadora.
A forma que permite manter-nos felizes, vivos e contentes.

Por isso quando alguém vos disser que o amor é isto..., a felicidade é aquilo..., sucesso é assado..., falhar é cozido... etc. etc. lembrem-se das vossas próprias definições e formatos (que são sempre confortavelmente provisórios, mutantes e evolutivos). Apresentem-nas, defendam-nas e argumentem. Elas são vossas e, tal como vós, também evoluem.

Lembro-me sempre a propósito desta minha tese (pseudo-verdade) de que somos fantásticos criadores das nossas próprias definições e formatos - porque as palavras são poucas - de uma história de um músico meu amigo.
Esse meu amigo era, e é, não só músico mas também cantor. E a determinada altura da sua carreira, começou a ter falhas na sua voz. Falava com as pessoas e de repente...sem qualquer motivo aparente, ficava sem voz.

Procurou ajuda diversa, até que um dos seus terapeutas lhe apresentou o "fantástico" diagnóstico: "você tem medo do sucesso". E o meu amigo, na sua desesperada busca de solução para o problema, lá aceitou o diagnóstico estranha e provisoriamente reconfortante. Durante muito tempo, na sua vida ele absorveu essa pseudo-verdade. Até que um dia se lembrou de questionar aquela definição condenatória das razões daquele seu "medo" que o fazia calar em certos momentos.

Questionou acima de tudo o formato de sucesso que a sociedade lhe parecia impor e percebeu que o formato vigente de sucesso da sociedade era diferente do seu formato. Foi aí que ele percebeu que não receava o sucesso, antes pelo contrário: ele amava o seu formato de sucesso.

E viveram felizes para sempre, ele e o seu sucesso.

Moral da história: O vosso moral da história tem todo o direito a ser diferente do meu, e muito provavelmente é.
Moral do moral da história: Só para terminar, hoje proponho-vos esta expressão/palavra: desrotinar - acto de alterar, modificar, quebrar rotina, experimentar novos caminhos e processos, criar novas ligações neuronais, criar novos formatos e definições, viver...

Desrotina !

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"Se apenas houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema."
Pablo Picasso

imagem: Nick Henderson

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Eric Prydz Vs Floyd - Proper Education

6 Comments:

Blogger Xicha said...

desrotinar - acto de alterar, modificar, quebrar rotina, experimentar novos caminhos e processos, criar novas ligações neuronais, criar novos formatos e definições, viver...


de todas falta-me ainda uma quebrar rotina e esta está a ser a mais resistente ...
Abraço
Xi

terça-feira, junho 26, 2007 3:37:00 da tarde  
Anonymous jorge a. said...

sabes bem que não sou grande defensor de definições estáticas e fechadas, por isso vamos na mesma onda.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

terça-feira, junho 26, 2007 11:37:00 da tarde  
Anonymous t.c. said...

moral da história: o verdadeiro moral da história mora em mim ;)

quarta-feira, junho 27, 2007 11:39:00 da manhã  
Anonymous iconoclasta said...

desrotinai e crescei

quarta-feira, junho 27, 2007 8:45:00 da tarde  
Blogger Paula Nogueira said...

Não poderias ter mais razão!
Fenomenal!!!!
Bjs carinhosos****

sexta-feira, junho 29, 2007 2:01:00 da tarde  
Blogger Mário Rui Santos said...

Oh Jorge obrigado por nos teres lembrado do Luís

"Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."

sábado, junho 30, 2007 10:19:00 da manhã  

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