Já reparaste como a história adora transformar o descontentamento numa "doença"?

Em 1851, diziam que os escravos que queriam fugir sofriam de Drapetomania — inventaram literalmente uma doença mental cujo único sintoma era o desejo irreprimível de ser livre.
Durante décadas, as mulheres que não se curvavam, que protestavam ou mostravam raiva, levavam com o carimbo de Histeria e eram internadas.
E até 1973, a homossexualidade constava nos manuais de psiquiatria como um transtorno a ser corrigido.
Sempre que a dor, o protesto ou a recusa em aceitar o inaceitável desconfortaram a norma, o sistema fez a mesma coisa: deslegitimou a pessoa, dizendo que ela estava doente.
E hoje, o que é que mudou?
Mudou a embalagem, mas o mecanismo é o mesmo.
Numa sociedade obcecada pelo rendimento, pelo optimismo à força e por ter tudo sob controlo, a tristeza legítima perante uma perda, a ansiedade normal diante da incerteza ou o esgotamento de quem carrega o mundo nas costas são rapidamente rotulados como "defeitos de fabrico" do cérebro.
É muito mais fácil — e rentável — tentar "consertar" a mente do indivíduo do que olhar para o ambiente que o está a sufocar.
A ansiedade e a tristeza, na maioria das vezes, não são avarias. São a nossa mente e o nosso subconsciente a funcionar exactamente como deviam: a gritar que algo no nosso mundo precisa de atenção.
Como dizia Krishnamurti, «Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente.»
Nem toda a dor precisa de um rótulo ou de ser anestesiada à pressa. Algumas dores são apenas a nossa humanidade a pedir para ser ouvida, compreendida e integrada.
Antes de nos apressarmos a diagnosticar a nossa dor, devíamos parar e perguntar: o que é que isto me está realmente a tentar dizer?
Ouvindo-nos...
Ouvindo a nossa dor se vai fazendo o caminho.

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