2007/11/14

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?


Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.

Estou assim…

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

7 Comments:

Blogger Mário Rui Santos said...

Obrigado Marta

quarta-feira, novembro 14, 2007 4:24:00 da tarde  
Blogger Xicha said...

Se, Se, se,... pois, pois
:)
Xi

sexta-feira, novembro 16, 2007 12:24:00 da tarde  
Blogger Mário Rui Santos said...

Se = cenário mental ;)

sexta-feira, novembro 16, 2007 6:45:00 da tarde  
Anonymous Diana Roque said...

Se... não nos esqueçamos que o fundamental é acreditar em nós mesmos!

E... assim... o coração de vidro pintado pode estalar e restalar ... e as suas cores e a qualidade do vidro, tornarem-se mais sensíveis e ... é isso que nos enriquece e faz crescer.

...Questionar, duvidar, não ter em que acreditar... pode ser o ponto de partida para nos encontrarmos a nós mesmos! É o caminho para a VERDADE.

Diana

segunda-feira, novembro 26, 2007 12:26:00 da tarde  
Blogger Mário Rui Santos said...

Até porque são as dúvidas e as questões do entretanto que nos tornam depois mais fortes nas certezas provisórias...

segunda-feira, novembro 26, 2007 12:54:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sim, a Verdade é mutável... mas existe em dado momento, na tríade "perspectiva, tempo, espaço"... logo concerteza é de "certeza" em "certeza provisória" alcançável...............................
Este caminho não tem fim!
:)

Diana

segunda-feira, novembro 26, 2007 2:09:00 da tarde  
Blogger Mário Rui Santos said...

Concordo Diana :)

segunda-feira, novembro 26, 2007 3:02:00 da tarde  

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